
No ano passado, 15% da população adulta tinha algum tipo de pequeno negócio, a maioria por enxergar uma boa oportunidade
Com a experiência de sua confecção, Luciana
Bechara decidiu investir no comércio virtual
Publicado em 07/04/2010 André Lückman
O número de empreendedores no Brasil cresceu quase 30% em 2009 em um movimento que, apesar da crise, manteve a tendência de melhora na qualidade dos pequenos negócios. Isso porque, segundo os dados da pesquisa internacional Global Entrepreneurship Monitor (GEM), o chamado “empreendedorismo por oportunidade” teve seu quarto ano seguido de crescimento, chegando a 9,4% da população adulta, contra 8% em 2008.
O levantamento classifica os negócios de acordo com a qualidade – enquanto os formados por uma oportunidade têm maiores chances de crescer, aqueles criados por necessidade normalmente refletem uma aposta mal planejada, causada pela falta de emprego. No ano passado, o volume total de empreendedores passou de 12% para 15,3% da população adulta, ou seja, mais de 15 em cada cem brasileiros adultos tocavam algum negócio. O volume de empreendimentos por necessidade subiu de 4% para 5,9%.
“Em um mundo ideal, não haveria empreendimentos por necessidade”, diz o diretor técnico do Sebrae nacional, Carlos Alberto dos Santos. Ele avalia que a crise, apesar de ter contribuído para um aumento na taxa de abertura de negócios por necessidade, não inibiu empreendedores que montam empresas com um bom planejamento.
Hedeso Alves/ Gazeta do Povo

Toque feminino
Mulheres abrem 53% dos negócios
A pesquisa GEM 2009 mostrou, pela primeira vez, que a proporção de mulheres empreendendo por oportunidade supera a de homens, com 53% do total. São negócios como o das sócias Lala Organ, que é administradora, e Anauila Timoteo, engenheira. Elas decidiram trazer para Curitiba um serviço consolidado no mercado norte-americano, mas ainda incomum no Brasil: o de “organizador pessoal”.
As sócias Lala e Anauila abriram uma empresa de organização pessoal
Com o mote “nós fazemos o que você não tem tempo de fazer”, elas oferecem serviços para pessoas que consomem a maior parte do dia trabalhando, e não têm tempo de resolver pequenas coisas do cotidiano. Entre as missões de confiança aceitas pela dupla estão escolher e comprar um presente para uma pessoa querida, fazer compras de supermercado, acompanhar prestadores de serviço em uma tarefa doméstica ou mesmo assessorar e organizar mudanças de residência. A empresa com nome de Mr. Time também presta uma consultoria mais ampla dentro da organização dos espaços de casa, como a readequação de residências para moradores idosos. “Hoje praticamente todas as pessoas gostariam que a vida tivesse mais horas, porque o volume de tarefas é muito grande. A questão primordial do nosso serviço é se encaixar nessa falta de tempo para cuidar da vida pessoal”, explica Lala.
“Há boas expectativas de que os negócios de oportunidade continuem ganhando espaço e que neste ano haja uma redução na quantidade absoluta de novos empreendimentos, refletindo queda da necessidade. A taxa total deve voltar para a casa dos 13% da população adulta, dentro da média histórica do país”, diz.
A coordenadora da GEM no Brasil, Simara Greco, avalia que os efeitos mais pulverizados da crise no Brasil contribuíram para o quadro positivo. “A crise passou pela gente mais de leve do que em economias maduras”, diz. Mas o país ainda precisa evoluir para atingir o nível de qualidade do empreendedorismo visto em lugares como os Estados Unidos, onde são abertos três negócios por oportunidade para um criado por necessidade. No Brasil a relação fica em 1,6.
Novo negócio
A microempresária Luciana Bechara Wichert é um exemplo de empreendedor que enxergou uma oportunidade em meio às incertezas da economia em 2009. Sua empresa, a Be Little, fabrica roupas infantis há sete anos, mas Luciana decidiu investir em um novo negócio, o comércio virtual. Ela contratou uma pesquisa de mercado, que apontou que o segmento de roupas para bebês ainda era inexpressivo no varejo virtual. “Vimos que o negócio tinha chance de prosperar”, diz.
Luciana conta que tinha receio por causa do momento da economia. “Tínhamos medo porque ninguém sabia o que ia acontecer. Mas não arriscamos muito: um planejamento cuidadoso e uma pesquisa de mercado nos deu segurança para investir”, diz. Segundo Wichert, em fevereiro de 2009 o site entrou no ar, e em seis meses o faturamento do departamento virtual recuperou seu investimento de R$ 30 mil para desenvolver o projeto. Em um ano, já dava lucro, e hoje tem oito funcionários.
Novatos inovam e exportam pouco
A coordenadora da pesquisa GEM no Brasil, Silmara Greco, confirma que a taxa recorde de empreendimentos de oportunidade é motivo de comemoração nacional, mas não se sustenta sozinha. “Os índices de inovação ainda são muito baixos, a perspectiva negativa de exportação está batendo no teto e os empreendimentos ainda precisam gerar mais empregos”, diz.
Segundo a pesquisa, entre os empreendedores iniciais apenas 5,4% fazem produtos ou serviços verdadeiramente inovadores. Outros 11,1% estão em uma faixa em que são apenas parcialmente novos, e os demais 83,5% não oferecem novidade alguma em seus produtos ou serviços. A baixa expectativa de exportação também está em destaque na série histórica da GEM. Apenas 10,5% dos novos empreendimentos têm expectativas de competir com seus produtos ou serviços fora do Brasil.
O presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, ressalta a importância de analisar a qualidade da inovação além da taxa isolada de empreendedorismo. “Observamos que em termos quantitativos o Brasil vai muito bem, mas ainda precisamos melhorar em termos qualitativos”, avalia. Segundo ele, há outro avanço que ficou de fora da pesquisa: a mortalidade das empresas no primeiro ano de atividade caiu de 45% para 22%.
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